Wednesday, April 5, 2017

Sobre os fantasmas famélicos (seres famintos) que querem dominar os outros seres através da religião

traduzido do Inglês por Shaku Shinkai

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“Aqueles que tomam refúgio com sinceridade e mente confiante, liberando a si mesmos de todos os apegos ilusórios e preocupações com o que é propício e impropício, nunca devem tomar refúgio nos espíritos ou nos ensinamentos não budistas.”[1]

Seres não iluminados são a causa kármica da existência dos reinos samsáricos não iluminados. Seus karmas individuais e coletivos manifestam estes reinos, mundos  e universos nos quais vivem. Ao contrário disso, seres Iluminados ou Budas, naturalmente e karmicamente manifestam Terras Puras ou reinos Iluminados. Se um assim chamado  “ser supremo” criou um mundo como o nosso, isto significa que ele não é iluminado, porque se o fosse, este mundo teria sido perfeito e habitado por seres perfeitamente iluminados. Buda Amida (e qualquer Buda!) não finge ser o criador deste mundo samsárico, apenas de sua Terra Pura Iluminada, para onde ele prometeu levar todos os seres samsáricos para a liberação final (Estado de Buda ou Nirvana).

Qualquer pessoa que finja ser o criador e dono deste ou de qualquer outro mundo samsárico está repleto de arrogância e sede de poder – uma característica que normalmente é encontrada em deuses e alguns fantasmas famélicos (seres famintos) que têm relação com reinos humanos. A atitude destes seres ou deuses é imperialista, ou seja, desejam receber elogios e deferências da maior quantidade de seres possiveis. Eu já dei anteriormente o exemplo de Brahma Baka no meu artigo Não há Deus Supremo no Dharma de Buda, em que ele foi iludido por Mara a acreditar ser “Onisciente, Onipotente, o Senhor Deus, o Criador, o Chefe, o Ordenador, o Todo Poderoso, o Pai de tudo o que foi e será” e em seguida foi corrigido por Buda Shakyamuni. No entanto, aqueles que possuem tais tendências imperalistas não pertencem apenas ao reino dos deuses, mas também ao reino dos fantasmas famélicos (seres famintos). Minha opinião é que a maioria dos deuses que vivem para além dos reinos humanos estão mais ocupados curtindo suas vidas longas e cheias de beleza do que com os problemas humanos. Então acredito que os fantasmas famélicos estão mais conectados conosco e mais envolvidos no nosso plano de existência. 

Como expliquei no meu artigo The Six Realms of Samsaric Existence, há vários tipos de fantasmas famélicos e nem todos eles são fracos ou torturados pela fome e pela sede. Alguns têm bastante poder devido a méritos e karmas anteriores,

"Os  fantasmas famélicos diferem muito uns dos outros; alguns deles possuem poderes sobrenaturais e gozam de uma glória parecida com a dos deuses”[2] (Bodhisattva Vasubandhu)

mas também arrogância e orgulho.

Dentre os os fantasmas famélicos, a categoria chamada de  gyalpos em tibetano, é a mais poderosa.  Gyalpo significa “rei” ou “real” e indica os vários líderes do plano dos fantasmas famélicos, então eles são da mesma categoria que Vasubandhu se referiu acima. É dito que nas suas vidas anteriores eles foram praticantes que acumularam muitos méritos mas não conseguiram superar arrogância e orgulho ou então morreram com pensamentos de ódio, vingança, etc.

De modo geral, todos os fantasmas famélicos tendem a tentar influenciar os outros. Todos estão sedentos por atenção, oferendas, etc, mas os gyalpos têm mais poder para colocar tudo isso em ação. Eles podem ser mestres da manipulação[3]; podem disfarçar-se de várias formas, até tomar a aparência de mestres do passado ou de Budas e Boddhisattvas e assim gostam  de espalhar vários “ensinamentos”. Há algumas histórias de praticantes budistas avançados  que foram manipulados pelos gyalpos. Esta categoria de fantasmas famélicos também podem fazer milagres e oferecer visões para fazer com as pessoas obedeçam e confiem neles.

Na minha opinião, as religiões abraâmicas/monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) foram criadas por estes fantasmas famélicos com tendencias imperialistas. Todas estas religiões foram fundadas em torno de visões, milagres e autoritarismo central de figuras “divinas” que pedem total submissão de seus seguidores. Os ciúmes do “deus”  do Velho Testamento é claramente expressa no primeiro dos dez mandamentos e em outra passagem do mesmo texto. Isto também é aceito no cristianismo:

"Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. Não há nenhum outro Deus.  Não farás para ti imagem de escultura representando o que quer que seja do que está em cima no céu, ou embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra; Não te prostrarás diante delas para render-lhes culto, porque Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus zeloso, que castigo a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e a quarta geração daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos"

Também no Alcorão há muitas passagens assim, aqui cito apenas algumas:

“Segue, pois, o que te foi inspirado por teu Senhor; não há divindade além d’Ele; e distancia-se dos que idolatram outros deuses”(Alcorão 6:106)

"Os piores pecadores aos olhos de Deus são aqueles que O rejeitam, porque não crêem." (Alcorão 8:55)

“Mohammad é o Mensageiro de Deus, e aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si" (Alcorão 48:29)

“E de quando o teu Senhor revelou aos anjos: Estou convosco; firmeza, pois, aos fiéis! Logo infundirei o terror nos corações dos incrédulos; decapitai-os e decepai-lhes os dedos!.” (Alcorão 8:12)

Combatei aqueles que não crêem em Deus e no Dia do Juízo Final, nem abstêm do que Deus e Seu Mensageiro proibiram, e nem professam a verdadeira religião daqueles que receberam o Livro (judeus ou cristãos), até que, submissos, paguem o Jizya.
(Alcorão 9:29)

Como podemos ver claramente, um deusassim claramente NÃO é Iluminado, mas um ser dominado por ciúmes, frustração e ira, que compartilha seu dito amorapenas com aqueles
que o amam ou seguem suas instruções, e que pune pela falta de obediência até a quarta geração. Também, no caso do Alcorão, ele incentiva seus seguidores a serem combativos com os incrédulos, referindo-se a eles como pecadores” que devem ser aterrorizados!

Que diferença entre seres raivosos dominados pelo desejo de atenção e um Buda que tem Compaixão indiscriminada por todos os seres, independente de aceitar ou não seus ensinamentos. Um Buda não tem necessidade de atenção e adoração dos outros, ele não se afeta com o amor ou a rejeição, elogios ou críticas. Tudo o que faz pelos seres surge de sua pura Compaixão e Sabedoria:

"Os Budas das dez direções pensam compassivamente sobre os seres sencientes do mesmo modo que uma mãe pensa em seu filho".[4]

Também, como todos os Budas tentam nos convencer a confiar em Buda Amida? Claramente não é através do terror ou da força e não ameaçando destruir até a nossa quarta geração:

"Shakyamuni e todos os outros Budas
são como nossos pais cheios de compaixão.
Com vários meios compassivos eles nos fazem acordar
para o shinjin supremo (fé no Buda Amida)que é real e verdadeiro."[5]

Claramente nenhum bem pode vir através da confiança em um ser mundano, ciumento e vingativo, independente de seus ensinamentos conterem alguns elementos bons também. Fantasmas famélicos poderosos (e também seus seguidores) podem ter sua própria evolução espiritual, uns podem ser melhores do que outros, mas certamente nenhum deles é iluminado e nenhum escapou da escravidão dos três venenos: ignorância, ganância/apego e aversão. Ao invés disso, tomar refúgio em Buda nos levará, cedo ou tarde, a Iluminação. Então, é preciso ser extremamente cauteloso a respeito dos seres que querem a nossa confiança, já que o efeito é similar a causa. Se tomarmos refúgio nos seres samsáricos, não importa o quão podersosos sejam, nunca escaparemos do samsara; se tomarmos refúgio nos Budas e especialmente em Buda Amida, atingiremos o Estado de Buda.


Namo Amida Butsu


- fragmento de uma carta para um amigo que queria misturar a fé em Buda Amida com a crença em uma religião monoteísta pensando que o "deus" destas religiões é igual a Buda Amida –







[1] Shinran Shonin tirou esta passagem do Sutra of the Ten Wheels of Ksitigarbha.
[2] Abhidharmakosabhasyam, traduzido em inglês por Leo M. Pruden; Berkeley, Calif, Asian Humanities Press, 1991; vol 2
[3] Porém, nem todos os gyalpos  manifestam  uma atitude imperialista. Há alguns que  se interessam no Dharma , mas são inconstantes, orgulho e ira são características principais, podem ser facilmente ofendidos e manipulados pelos Maras
[4] O 'Chapter of Mahasthamaprapta' do Sutra of the Samadhi of Heroic Advance.
[5] Shinran Shonin, Hymn of the Two Gateways of Entrance and Emergence, The Collected Works of Shinran, Shin Buddhism Translation Series, Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Kyoto, 1997, p.629


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